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Heademenor

Entrevista concedida à Revista Styllus

entrevista

Revista Styllus - O que é o seu trabalho e como surgiu o interesse por deficientes auditivos?
Luana - Minha especialidade é a inclusão social de deficientes auditivos e sua comunicação por sinais. O surdo é o único deficiente que não tem o contato de fala oral, por isso precisa de uma linguagem própria. Esse assunto me interessa desde criança, e aos 12 anos já sabia a datilologia - soletração de uma palavra usando o alfabeto manual de Libras (Língua Brasileira de Sinais). Eu me apaixonei pela linguagem e, assim que tive oportunidade, me aprofundei nos estudos e me profissionalizei.

RS - Quais as maiores dificuldades que você encontrou para estudar a língua dos surdos?
Luana - Não existem muitos profissionais e cursos nessa área. Na época em que estudei, era um aprendizado de sinais isolados, sem estrutura e contexto. Consegui me aprofundar e dar continuidade aos estudos quando me aproximei da comunidade surda. Descobri pessoas agradáveis, que gostam muito de ensinar. Então percebi que a comunidade possui cultura e linguagem próprias e que, para aprender a linguagem, é preciso, primeiro, entender os hábitos deles.

RS – Você acredita que a comunidade surda se formou pela necessidade de se comunicar com as outras pessoas?
Luana - Penso que os surdos se agrupam por se comunicarem de forma diferente dos ouvintes (pessoas que não apresentam deficiência auditiva). É preciso ter uma ponte com o mundo externo, porque eles são minoria. Hoje, em Divinópolis, temos a ASD – Associação dos Surdos de Divinópolis - presidida pela surda instrutora Cristina Norton, e a Sociedade dos Surdos de Divinópolis, presidida pelo também surdo Luizmar. Os associados possuem carteirinha, participam de encontros semanais, eventos, federação de esportes etc. As associações são como clubes de surdos, porém abertos à comunidade.

RS - Por serem minoria, e poucas vezes compreendidos, os surdos apresentam problemas de baixa auto-estima?
Luana - Muita. A maior dificuldade é manter o acompanhamento. Fazemos uma conscientização e valorização da comunidade, incentivando-os a participar de política, através de comícios, a tirar título de eleitor, a votar na urna eletrônica, e os levamos a sessões na Câmara Municipal. Esse trabalho é muito importante e produtivo para eles. Acredito que promover inclusão não é só colocá-los em um local, mas permitir que interajam, senão, ficam excluídos da mesma forma.

RS – Você disse que os surdos são pessoas carentes de atenção e apoio. O que poderia mudar essa realidade, pelo 10S em Divinópolis?
Luana - Ter mais profissionais capacitados para o ensino. Quem decide trabalhar como intérprete ou professor de Libras precisa estar disposto a saber uma língua, como não é simplesmente aprender e ensinar um pouquinho de sinais. Além disso, faltam boa vontade e investimentos da sociedade. Precisamos de mais incentivo e parcerias no desenvolvimento de projetos nesse segmento. Outro fato que não pode ser ignorado é que os surdos precisam de dentistas, psicólogos, roupas, alimentos, enfim, todo profissional deve estar preparado para atendê-Ios.

RS - Como resolver a falta de entendimento da linguagem de sinais?
Luana - Acredito na inclusão do curso de Libras na escola, assim como se estuda português. Então, todos estarão preparados para se comunicar com os surdos. Por exemplo, a maioria das famílias não reconhece o surdo como deficiente; acham que, se falarmos mais alto, eles escutam, então, não aprendem a linguagem de sinais porque considera difícil e então criam uma comunicação particular, mas superficial, que supre apenas necessidades básicas.

RS - Para finalizar, gostaria que você falasse sobre o preconceito enfrentado pelos surdos.
Luana - É um assunto muito delicado. Quando um surdo chega perto de alguém e emite aqueles sons, a impressão que se tem, num primeiro momento, é que ele é doido. Para a grande maioria, ele não é surdo, é mudo, doido e retardado. É preciso esclarecer: ele tem deficiência auditiva, e não mental, não é mudo, apenas não aprendeu a falar. Já vi muitas pessoas ficarem com medo dos surdos por causa da altura em que eles emitem os sons, o que não sabem é controlar esta altura porque não ouvem. Parte da linguagem é a expressão facial, por isso gesticulam tanto. Outra característica é que são muito francos. Isso incomoda algumas pessoas.

RS - Qual o seu retorno por trabalhar em uma área tão cada e peculiar?

Luana - Um sentimento maravilhoso. Sou apaixonada pela linguagem de sinais e a cultura surda. Preocupo em trabalhar a auto-estima e a independência deles. Ensino que não devem se comportar como "coitadinhos”, mas aprender sempre, trabalhar e procurar evoluir. Fico muito feliz quando algum deles arruma emprego e é reconhecido como uma pessoa normal.